REFLEXÕES A RESPEITO DA INTOLERÂNCIA

HISTÓRIA, NEOFASCISMOS E INTOLERÂNCIA

O prof. Dr. Dilton Cândido Santos Maynard é o organizador do livro História, Neofascismos e Intolerância.
Na entrevista a seguir, 2 dos autores do livro, os historiadores Paulo Teles e Pedro Carvalho fazem uma reflexão acerca da intolerância e discutem, entre outros, o papel da comunicação e os reflexos da globalização e possíveis motivações ideológicas e políticas que motivam ações recentes na Europa e na América do Sul.

André Pestana: Diante dos eventos recentes relacionados a intolerância e denúncias sobre o manifestações racistas ocorridos na Eurocopa 2012, é necessário, apesar de incômodo, realizar questionamentos sobre tais acontecimentos em pleno século XXI. A que se deve o surgimento dessas manifestações e quais as motivos possíveis para a existência de grupos sociais marcados por uma postura política agressiva?

Paulo Teles & Pedro Carvalho Oliveira: As razões para o surgimento desses grupos e as suas motivações percorrem uma lista extensa, contudo, identificamos alguns pontos em comum, um deles está relacionado ao fato da readaptação das economias capitalistas antes caracterizadas pela política do welfare state (bem-estar social) após a crise do petróleo de 1973. Assim, as comunidades onde essa transição ocorreu de forma crítica e o contraste crescimento econômico e bolsões de pobreza foram marcantes, tornaram-se solos férteis para o florescimento de grupos extremistas, que consideravam os seus governos débeis e apontavam como principal causador dos problemas internos, os indivíduos considerados estranhos àquela comunidade. Contudo, os problemas econômicos não resumem o problema. É evidente que a situação descrita acima também perpassa a questão da identidade, cada vez mais em crise na sociedade globalizada. Os problemas relacionados a ela foram intensificados devido a um nítido processo de naturalização da violência. Além disso, o intercâmbio de diferentes modus vivendis pôs em xeque situações sociais antes consideradas particulares e associadas a uma determinada nação o que tornou problemático os processos identitários nos anos iniciais do século XXI.

André Pestana: Quais os eventos mais marcantes sobre os problemas descritos acima?

Paulo Teles & Pedro Carvalho Oliveira : Apesar do alarme geral, a ocorrência de crimes cometidos por grupos de extrema-direita não são recentes. Há exatos 20 anos, atentados com características semelhantes ocorreram na cidade de Möelln (Alemanha), quando grupos neonazistas incendiaram um albergue de trabalhadores turcos provocando a morte de uma mulher de 53 anos e duas meninas, além dela, outra cidade, também alemã (Solingen) foi vítima de ataques com as mesmas motivações onde morreram duas mulheres e três jovens turcas. Além disso, podemos citar a tragédia ocorrida na ilha de Utoya (Noruega) quando o atirador Anders Behring Breivik promoveu o assassinato de mais de 70 pessoas e o caso do atirador da escola judaica Ozar Hatorah, em Toulouse (França) em março desse ano.

André Pestana: Quem são os skinheads?

Paulo Teles & Pedro Carvalho Oliveira: Apesar de associados frequentemente ao nazismo, trata-se de uma subcultura surgida sem estes propósitos, em meados da década de 1960 na Inglaterra, mesclando elementos do mundo operário com características de outras tribos urbanas da classe média inglesa, como os mods e os teddys. Vestem-se com calças jeans, coturnos, camisetas Fred Perry ou Ben Sherman e suspensórios. As cabeças raspadas podem simbolizar o corte de cabelo operário ou a rejeição aos hippies e seus cabelos longos (vistos como preguiçosos, sem gosto pelo trabalho). São famosos por frequentarem ativamente partidas de futebol, ouvirem ritmos jamaicanos como o reggae e o ska, mas também um subgênero de punk rock chamado Oi!. Apesar de já serem associados à violência urbana, somente a partir do final dos anos 1980 passam a ter adeptos de ideologias fascistas, graças a influência de partidos de extrema-direita. Neste momento, cresce um fenômeno pouco visto nesta subcultura entre os anos 1960 e 1970: o envolvimento de skinheads com ideologias políticas, sejam ela de direita, esquerda ou centro. Desta forma, além dos neofascistas, existem skinheads socialistas, anarquistas, etc.

André Pestana: Existe neofascismo na América do Sul?

Paulo Teles & Pedro Carvalho Oliveira Sim. Skinheads, movimentos políticos de extrema-direita e ideólogos alinhados ao fascismo atuam em países como Chile, Argentina, Colômbia, Uruguai, até mesmo no Brasil. Embora sigam diretrizes diferentes das encontradas na Europa e nos Estados Unidos, sendo obrigados a adaptarem o discurso ao contexto sul-americano, o pensamento de intolerância e violência permanece, causando mais vítimas a cada dia no meio urbano. A morte do jovem Daniel Zamudio, no Chile, em março de 2012, é um exemplo disto: foi causado por um grupo de jovens que lhe espancaram e mutilaram por ser homossexual, talhando em sua pele suásticas nazistas.

André Pestana: O que é GET? Além da intolerância, quais as outras temáticas abordadas pelo GET (Grupo de Estudos do Tempo Presente – CNPq/UFS)?

Paulo Teles & Pedro Carvalho Oliveira : Bem, o Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET) é um grupo de pesquisa sediado na Universidade Federal de Sergipe, por ela certificado e cadastrado no diretório dos Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e liderado pelo Professor Doutor Dilton Cândido Santos Maynard. O GET tem realizado atividades de pesquisa e extensão desde outubro de 2008 sobre as temáticas Intolerância, Internet e 2ª Guerra Mundial, além disso, o grupo tem participado regularmente de eventos locais, nacionais e internacionais, contando com a participação tanto dos seus alunos quanto dos seus pesquisadores. Seus membros também têm produzido artigos científicos e textos de divulgação científicas para jornais locais (somente em 2009 foram produzidos mais de 20 textos) e participado como entrevistados em programas de televisão. Recentemente, o GET celebrou parceria com dois importantes grupos de pesquisa: o Laboratório do Tempo Presente, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Laboratório de Imagem e Som da Universidade Estadual de Santa Catarina, (UDESC).

Entrevistados:
Paulo Roberto Alves Teles é graduado no Curso de História pela Universidade Federal de Sergipe onde integra o Grupo de Estudos do Tempo Presente (UFS-CNPq) e desenvolve pesquisa sobre Cinema, Representações e Intolerância pelo programa de mestrado do Núcleo de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (NPPCS/UFS);

Pedro Carvalho Oliveira é graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe. Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET/FNDE/MEC). Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNPq/UFS) coordenado pelo Prof. Dr. Dilton Cândido Santos Maynard.

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