MITOS E VERDADES DA REDAÇÃO PARA O ENEM

O PENSAMENTO CRÍTICO E A REDAÇÃO DO ENEM

ALEXANDRE SANTOS, 60, É PROFESSOR DE LITERATURA E LÍNGUA PORTUGUESA HÁ 30 ANOS E RADIALISTA PROFISSIONAL ( locutor esportivo ) HÁ QUARENTA E DOIS. GRADUADO EM LETRAS PELA UFS, UFRN E UNICAP E COM CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO ( sem diploma ) EM LITERATURA BRASILEIRA, LINGUÍSTICA APLICADA AO ENSINO DE PORTUGUÊS E ALFABETIZAÇÃO ESCOLAR. DECLARA-SE ANTIACADÊMICO, ANTIDOUTORAL, ANTIBURGUÊS E ANTICAPITALISTA, POR ISSO, NÃO QUER MAIS A ACADEMIA. INTITULA-SE UM AUTODIDATA E “GAUCHE” ( sentido drummoniano ) NO TEMPO.

 

“A solução dos problemas humanos terá que contar com a literatura, a musica, a pintura, enfim com as artes. O homem necessita de beleza como necessita de pão e de liberdade. As artes existirão enquanto o homem existir sobre a face da terra. A literatura será sempre uma arma do homem em sua caminhada pela terra, em sua busca de felicidade.”  (Jorge Amado)

 

Lúcio Alves e André Pestana – O que o aluno precisa saber para se sair bem na prova de Redação do ENEM?

Parto do pressuposto de que o aluno já sabe e tem competência, porque, à sua maneira, revela-se em potencial, hoje, com exceções, um leitor politizado, um questionador, um problematizador e um inquiridor, e estas são as condições “sine qua non” para se sair bem em qualquer exame.
Ocorre, todavia, que, apenas por uma questão de maturidade, precisa de um orientador, alguém que o estimule e indique situações para que  possa decidir caminhos intelectuais mais adequados a ele, para que possa se expressar através da escrita, desde os primeiros momentos da educação formal e não apenas no ensino médio, como soi acontecer. Este alguém deve ser um bom professor de Produção de textos, digo bom, porque deve ser afinado com propostas que tenham como objetivo primordial a interação entre leitura, produção textual e análise linguística.
É inadequado, hoje, mas é o que o sistema educacional ainda impõe e alguns professores aceitam, por inércia ou mesmo incompetência, que o foco primordial, nas aulas de português, seja em regras e nomenclaturas. Assim, poderíamos dizer que os conhecimentos necessários para ler e produzir textos são de três níveis: conhecimento do sistema linguístico; conhecimento do contexto sócio histórico em que o texto foi construído; conhecimento dos mecanismos de estruturação do significado.  Orientado desta maneira a ler e escrever, o aluno se saíra bem em qualquer exame.
Vê-se, portanto, que uma boa Redação será resultado de um processo de maturação intelectual e social.

 

Lúcio Alves e André Pestana – De que forma a Literatura contribui para que o aluno possa fazer bem a prova de Redação do ENEM?

– O dia-a-dia da sala de aula e os exames vestibulares têm mostrado, através das médias em Língua portuguesa e Literatura brasileira, em provas como a do ENEM que grande parte dos alunos vestibulandos não consegue identificar recursos discursivos mais sofisticados utilizados pelas QUESTÕES PROPOSTAS, como efeitos de ironia ou humor em diferentes textos literários ou em outros gêneros. Essa dificuldade, em parte, decorre do fato de circular, nas aulas de literatura, um discurso didático sobre o literário, em que, quase sempre nelas, o texto literário propriamente dito é pouco trabalhado e vivenciado pelos alunos. Do mesmo modo, quase nenhum espaço têm outros tipos de discursos, gêneros e linguagens que se transformam e se diluem no discurso didático sobre literatura. Como resultado, os alunos do ensino médio e vestibulandos não se mostram competentes para analisar e interpretar textos literários nas múltiplas dimensões responsáveis pela construção de sentido, o que nos levar a supor que o ensino de leitura e a abordagem do texto literário não têm sido objetivo central das aulas de literatura, ficando evidente que, no Ensino médio, o ensino de literatura não tem alcançado plenamente um de seus objetivos essenciais a que se propõe: a formação de leitores competentes, de textos literários e não literários.
Assim, tem-se observado, como prática habitual, que o objeto central das aulas de literatura, em vez de ser o texto literário é constituído de um discurso didático sobre literatura, em que a finalidade real dessas aulas não é o alcance dos objetivos propostos pelas bancas examinadoras dos vestibulares e principalmente pelo ENEM, mas tão-somente a apropriação passiva, pelo aluno, desse discurso didático. Assim, o ensino de Literatura vai contribuir para um melhor desempenho do aluno na produção de texto para o ENEM à medida que o professor entender e inserir em sua prática pedagógica uma metodologia em que sejam primordiais:

– O ESTUDO LITERÁRIO QUT ETENHA COMO PONTO DE PARTIDA O TEXTO;
– ENTENDMENTO DO TEXTO COMO ORGANIZAÇÃO ESTÉTICA E LINGÜÍSTICA;
– RELACIONAR O TEXTO COM OUTRAS LINGUAGENS E GÊNEROS;
– ESTUDO INTERPRETATIVO DA METODOLOGIA DAS PROVAS DOS VESTIBULARES.
– BUSCAR, NOS TEXTOS, PONTOS DE INTERSECÇÃO:
   1 – POR TEMAS
   2 – POR GÊNEROS
   3 – POR TRADIÇÃO
   4 – POR PROJETO ESTÉTICO
– ESTUDO DE RECONHECIMENTO DAS CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS DO AUTOR E DA ÉPOCA NO TEXTO.

 

Lúcio Alves e André Pestana – Quais habilidades e competências são necessárias para que o aluno possa fazer uma boa prova do ENEM?

– De certa forma, esta pergunta já foi respondida, no tocante à Literatura, na resposta anterior, mas entendo que não existe uma noção clara e partilhada das competências, visto que mais do que definir, convém conceituar por diferentes ângulos. Desta maneira, poderíamos dizer que uma competência permite mobilizar conhecimentos a fim de se enfrentar uma determinada situação e, assim sendo, a competência não é o uso estático de regrinhas aprendidas, mas uma capacidade de lançar mão dos mais variados recursos, de forma criativa e inovadora, no momento e de modo necessário.A competência abarca, portanto, um conjunto de coisas e implica uma mobilização dos conhecimentos e esquemas ( no sentido piagetiano ) que se possui para desenvolver respostas inéditas, criativas, eficazes para problemas novos.
Em termos de realidade para o professor, o que seria ser um professor competente? Seria ter conhecimentos teóricos sobre a disciplina que leciona? Sem dúvida, mas não seria suficiente. Saber, diante de uma pergunta inesperada de um aluno, buscar nesses conhecimentos aqueles que possam fornecer-lhe uma resposta adequada? Também.
O conceito de habilidade também não é único, pois teoricamente é variável. Em geral, as habilidades são consideradas como algo menos amplo do que as competências. Assim, a competência estaria constituída por várias habilidades. Entretanto, uma habilidade não “pertence” a determinada competência, uma vez que uma mesma habilidade pode contribuir para competências diferentes.
A competência, então, para o aluno fazer uma boa prova do ENEM, é consequência de várias habilidades que adquiriu durante todo o processo de formação escolar e social por que passou.
Assim sendo, a aprendizagem estanque, compartimentalizada, como é comum na disposição e operacionalização das disciplinas escolares, na atualidade, não contribui para o aluno adquirir habilidades necessárias para, com competência, fazer uma boa prova, cuja essência está centrada na interdisciplinaridade e na convergência de vários ramos de conhecimentos.
Finalizando, como pode um aluno está preparado para o ENEM, quando ele pergunta ao professor, se isto cai no vestibular? Isto quer dizer que a competência dele está constituída de uma habilidade pré-determinada. A realidade hoje é diversa.

 

Lúcio Alves e André Pestana – Em sua opinião, o que precisa ser feito na atualidade para que nossos alunos possam conseguir resultados cada vez melhores na avaliação do ENEM?

– Tenho acompanhado o que se tem feito em várias instituições de ensino médio do país. O que observo é semelhante, salvo raríssimas exceções, a pintar uma casa com defeitos estruturais para parecer nova. Em outras palavras, grande parte dessas instituições de ensino tem “macaqueado” o processo educacional, do mesmo modo que fez o pintor. Então aparecem apostilas, livros, mídias, com o mesmo conteúdo de quarenta anos, mas ilustrado com figuras e outras parafernálias, numa realidade que mudou radicalmente neste início de século. Neste contexto, as escolas não inovam e os professores sentem-se pressionados a não inovar, sob pena de perder o emprego. Torna-se um ciclo vicioso e prejudicial ao aluno que vai fazer a prova do ENEM, pois os conhecimentos bitolados que ele consegue no ensino médio estão na contramão da atualidade.
Torna-se mister que seja feita uma reforma radical na proposta pedagógica das instituições e nela se privilegiem aspectos interdisciplinares e intertextuais, em que a interrelação entre gêneros artísticos seja a essência da metodologia educacional. Por exemplo, em sala de aula, o livro não pode e não deve ser apenas e o único guia do conhecimento gerido pelo professor, numa sociedade em que o conhecimento pode chegar através de vários níveis, como vídeos, pinturas, charges, tirinhas de jornais, escultura, arquitetura, jornais, etc.
Finalizando, um fato: desde o ano passado que tenho colocado em prática uma proposta pedagógica interativa em que Literatura, enquanto texto escrito, é vista, ainda que de maneira incipiente, dentro de uma “simbiose” com história, política, linguística, filosofia, sociologia e psicologia, através de recortes de vídeos, gravuras, telas, fotografias, escultura, arquitetura, charges, etc. Resultado, sofri uma pressão que quase me levava a perder o emprego, isto porque, os alunos não estavam habituados a este tipo de pedagogia tão necessário à nova realidade e que, com outras inovações, facilitará ao aluno fazer uma boa prova do ENEM.

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